quinta-feira, 15 de abril de 2010

Miles Davis

1981 - The Man With The Horn
Gênero: Jazz Fusion/Funk



Considero o álbum “The Man With The Horn” como um dos melhores da carreira do trompetista Miles Davis. Como já disse em outros posts, Miles Davis é um capitulo na história do jazz, é impossível citar um e não citar o outro.

Miles Davis estava afastado dos palcos e dos estúdios por um tempo, o motivo era a sua saúde que estava debilitada por causa da bebida e da cocaína e por isso necessitava de uma recuperação. A situação em 1979 era a seguinte: Davis viu a acessão e a evolução do fusion no cenário musical, porém quando voltou a ativa seus antigos parceiros, entre eles Chick Corea, não estavam tão engajados naquela vertente e buscavam novos caminhos. Miles com toda percepção e talento percebeu uma nova safra de bons músicos e buscou um meio de trazê-los e formar novo grupo, para mais uma vez revolucionar e moldar o jazz a sua maneira.

Como nas outras vezes, Miles acertou e não decepcionou, “The Man With The Horn” foi lançado em 1981 e o resultado é um álbum de extrema qualidade e moderno. O som é impecável como sempre, com muito groove, funk e rock. O álbum começa com a explosiva “Fat Time”, o que marca nessa música é o peso e a groove feito pelo genial Marcus Miller e o trompete refinado de Miles. Já “Back Seat Beety” começa com a guitarra destorcida do excelente Mike Stern e depois alterna entre o baixo, o trompete e o teclado marcante de Robert Irving III. “Shout” é a música mais dançante do álbum e com uma performance incrível de Miles Davis e mostra que seu retorno é mesmo triunfal. O cenário musical nos anos 80 foi marcado pelo uso de teclados e sintetizadores, muitas bandas de rock usaram isso nesse período. Miles Davis também abusou desse artifício, a prova são as músicas “Ainda” e “Man With The Horn”, destaque para Marcus Miller, que apresenta uma linha de baixo bem interessante e claro Miles por encaixar o som do trompete de maneira tão precisa. Por fim “Ursula” que começa com uma pequena intro de baixo e depois o trompete de Miles se sobrepõe, são mais de 10 minutos de pura viagem musical.

É por tudo isso que considero esse álbum como um dos melhores da carreira de Miles Davis. Apesar de ter ficado afastado e nas dificuldades que encontrou no seu retorno, o trompetista se mostra como sempre inovador, Miles tem o controle total sobre a música, ao ponto de moldá-la conforme o sua vontade e como num passe de mágica ela se mostra submissa. Depois desse álbum o trompetista continuou trilhando esse caminho e lançando excelentes trabalhos, que mais para frente vou postar aqui. Por enquanto é isso. Boa Audição ! E não esqueça de deixar um comentário.

Track List

01. Fat Time
02. Back Seat Betty
03. Shout
04. Aida
05. The Man With The Horn
06. Ursula

Miles Davis - (Trompete)
Marcus Miller - (Baixo)
Bill Evans - (Saxofone Soprano)
Mike Stern - (Guitarra)
Robert Irving III - (Sintetizadores)
Al Foster - (Bateria)
Sammy Figueroa - (Percussão)

Site Oficial: Miles Davis

terça-feira, 13 de abril de 2010

John Pizzarelli

2010 - Rockin in Rhythm: A Tribute to Duke Ellington
Gênero: Jazz



Considero o John Pizzarelli como um divisor de águas na minha vida musical. Se hoje tenho um fascínio e junto com isso um pouco de conhecimento sobre o jazz, devo isso a esse excelente guitarrista. Não consigo ser imparcial para falar dele, porém longe de ser apenas gratidão e sim por que os trabalhos dele são impecáveis. John Pizzarelli é um dos grandes nomes do jazz atual e vem conquistando isso com muito suor, a cada álbum traz uma surpresa e continuando mostrando sua versatilidade com clássicos, já fez isso ao regravar as músicas dos Beatles, Tom Jobim, Frank Sinatra e claro Nat King Cole. E também ao participar de gravações com outros músicos.

Depois de lançar seu último álbum em 2008, agora Pizzarelli ressurge com seu mais novo lançamento: “Rockin in Rhythm: A Tribute to Duke Ellington”. O homenageado da vez é o pianista Duke Ellington, um dos músicos mais influentes do jazz. Parte desse conhecimento e interesse por clássicos do jazz, o guitarrista aprendeu com seu pai Bucky Pizzarelli, foi ele quem colocou o filho nesse caminho. Para você ter noção, Duke Ellingon faleceu em 1974 e na época John tinha apenas 14 anos de idade. A verdade é que John Pizzarelli lida muito bem com os clássicos, foi assim nos outros trabalhos, ele tratou com cuidado as músicas do Nat King Cole, lidou com habilidade ao regravar os Beatles (em jazz) e foi impecável ao cantar músicas do Tom Jobim.

Em “Rockin in Rhythm: A Tribute to Duke Ellington” o guitarrista escolheu para o repertório 12 canções. Verdadeiras preciosidades e que foram lapidadas com todo cuidado e competência. John Pizzarelli contou com músicos de qualidade, começando pelo seu quarteto: Martin Pizzarelli (baixo), Tony Tedesco (bateria) e Larry Fuller (piano). E também com a orquestra que participou em algumas músicas: Tony Kadleck (trompete), Andy Fusco (saxofone alto e clarinete), Kenny Berger (clarinete baixo e baritono), Harry Allen (saxofone tenor), John Mosca (trombone), Kurt Elling (vocal. Faixa 7), sua esposa Jessica Molaskey (vocal. Faixa 7), seu pai Bucky Pizzarelli (guitarra elétrica e acústica. Faixas: 3,8,11) e Aaron Weinstein (violino. Faixas 2,4,5).

Bom com esse time não precisa dizer que o álbum ficou surpreendente. Os arranjos são todos do Don Sebesky, que exagerou brilhantemente. Para não ter que citar todas as músicas, vou comentar algumas: “In A Mellow Tone” abre o álbum no melhor estilo John Pizzarelli, com muita energia, uma orquestra impecável, Larry Fuller mandando muito bem no piano e claro a característica principal do Pizzarelli: Solos e Scats. Em seguida um dos melhores momentos do álbum, e posso dizer que foi uma jogada de mestre. Pizzarelli apresenta a junção de duas canções que Duke Ellington tocava separadamente. Enquanto o guitarrista canta “I Don't Get Around Much Anymore” a banda por sua vez toca “East St.Louis Toodle-Oo”. Para quem não conhece, esse detalhe acaba passando batido. Destaque para o trompetista Tony Kadleck que participa com solos durante a canção. Em “Satin Doll” o destaque vai para o pianista Larry Fuller, o guitarrista Bucky Pizzarelli que sola muito bem e o baterista Tony Tedesco. Em “Just Saqueeze Me” o destaque é todo para John Pizzarelli, que faz uma apresentação solo. “Perdido” é muito divertido, impossível não gostar dessa música e que tem a participação da sua esposa Jessica Molaskey e do Kurt Elling nos vocais. Em “All Too Soon” John Pizzarelli tem o acompanhamento do seu pai Bucky. “C Jam Blues” é outra que merece destaque, instrumental de primeirissma qualidade e que conta com a participação do violinista Aaron Weinstein e do saxofonista Harry Allen. E por fim a música “I'm Beginning To See The Light” perfeita e que alia o instrumental orquestrado, voz e solos de piano e guitarra. É uma das melhores do álbum sem dúvida. As outras que eu não citei também merecem uma atenção especial.

Quando eu disse que não consigo ser imparcial ao falar do Pizzarelli, é justamente por causa dos seus álbuns. Todos seguem uma linha determinada, o estilo não muda, porém mesmo assim a cada lançamento tem uma surpresa e um toque de genialidade. Ao ver o guitarrista regravando Duke Ellingont, Nat King Cole e tantos outros, isso demonstra uma preocupação em mostrar esses clássicos de uma maneira mais atrativa ao público jovem. John Pizzarelli tem se mostrado ainda mais versátil a cada lançamento e tudo indica que isso não vai parar. Que venha o próximo álbum e claro shows pelo Brasil. Boa Audição !

Track List

01. In A Mellow Tone
02. East St. Louis Toodle-oo/Don't Get Around Much Anymore
03. Satin Doll
04. C Jam Blues
05. In My Solitude
06. Just Squeeze Me
07. Perdido
08. All Too Soon
09. I'm Beginning To See The Light
10. Love Scene
11. I Got It Bad And That Ain't Good
12. Cottontail/Rockin' In Rhythm

Site Oficial: John Pizzarelli

domingo, 11 de abril de 2010

Pata de Elefante

2010 - Na Cidade
Gênero: Rock Instrumental



“Na Cidade” é o mais novo trabalho da banda gaucha Pata de Elefante. O álbum acaba de sair do forno, foi lançado no último dia 09 pela TRAMA, que disponibilizou o álbum para download através do projeto Álbum Virtual.

O som da banda continua excelente, assim como os outros trabalhos, porém achei mais parecido com o primeiro “Pata de Elefante” (2004), já que o segundo “Um olho no fósforo, outro na fagulha” (2008) trilhou pelo caminho do folk e country rock. “Na Cidade” é um álbum que comprova definitivamente a qualidade do trio (Gabriel Guedes, Daniel Mossman e Gustavo Telles) e que devido as influências nos remete ao bom e velho rock dos anos 60 e 70. Outro ponto que vale ressaltar é a mescla de estilos, prova disso é o samba da música “Vazio na Cerveja” e o toque latino nas “A Luz de Velas” e “Pesadelo no Bambus”. Destaque também para as músicas “Diga-me com quem andas e te direi se vou junto” – que inclusive é um ótimo titulo (risos) , “Sai da Frente” e “Um Pouco antes de dormir”. O rock instrumental da banda é tão completo que sinceramente um vocalista não faz a menor falta, pelo menos foi essa a sensação que eu tive quando ouvi o som pela primeira vez. O instrumental da conta do recado.

A banda também contou com o tecladista Luciano Leaãs (Fernando Noronha & Black Soul, Acústicos e Valvulados e Locomotores) que tocou órgão Hammond, piano, cravo e Clavinet. Músicos convidados e instrumentos como sax, trombone, percussão, piano Rhodes e vibrafone enriquecem o ambiente sonoro da obra. Uma informação importante que deve ser citada é sobre a produção do álbum, que foi gravado nos Estúdios Trama e a masterização foi feita no badalado estúdio Abbey Road por Steve Rooke, inclusive foi o próprio que remasterizou os discos da carreira solo de John Lennon e Paul McCartney e integrou a equipe de remasterização da obra completa dos Beatles, no ano passado. (Fonte Trama)

Enfim “Na Cidade” tem todos os ingredientes que um bom álbum necessita, desde os músicos de qualidade, passando pelas músicas bem trabalhadas e toda fase de produção. E o melhor disso tudo é que o álbum está sendo distribuído gratuitamente pela Trama, que vem fazendo um excelente trabalho nessa área.

No site do Álbum Virtual (Pata de Elefante) é possível ouvir, ver o encarte e fazer o download do álbum completo. Para isso é preciso fazer um cadastro (muito simples). Vale a pena dar essa força para o pessoal do Pata de Elefante.

Track List

01. Diga-me com quem andas e te direi se vou junto
02. Squirt Surf
03. Grandona
04. Um pouco antes de dormir
05. Pesadelo no Bambus
06. Sai da Frente
07. De volta pela manhã
08. Psicopata
09. Vazio na Cerveja
10. Arthur
11. Á luz de Velas
12. Reforma no Banheiro
13. Grande Noite

Gabriel Guedes (Guitarra e Baixo)
Daniel Mossman (Guitarra e Baixo)
Gustavo Telles (Bateria)



Site Oficial: Pata de Elefante
Site do Álbum Virtual (TRAMA): Clique Aqui

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Mansur Samba Trio

2008 - Live in Rio
Gênero: Samba Jazz


Conheci o som do Mansur Samba Trio através do blog M&C - Música e Cerveja do Rafhael Vaz.

Mansur Samba Trio é um projeto idealizado pelo violonista Ricardo Mansur, ao lado do baixista Fabricio de Souza e do baterista Wallace Santos. Apesar de classificar como samba jazz, o som do trio flerta com influências trazidas do funk e de ritmos brasileiros. “Live in Rio” (2008) é o único trabalho do trio e conta com três músicas, “Santa Tereza”, “Samba Simples” e “Wilson Divisão”. Inclusive foi esse o trabalho divulgado na internet. E também já gravaram um DVD ao vivo no Teatro Municipal de Niteroí .

O som do trio é coisa fina, muito agradável de se ouvir, as letras são grudentas e tratam de temas simples, um exemplo é “Santa Tereza” que fala sobre o bairro do Rio de Janeiro. É a cara do samba carioca mesmo. A parte ruim é que toda essa qualidade se resume a três faixas (por enquanto). E também peca um pouco pela falta de informação em relação ao trabalho deles. Vamos ficar atentos, por que Mansur Samba Trio tem qualidade de sobra para despontar no cenário. Boa Audição.

Track List

01. Santa Tereza
02. Samba Simples
03. Wilson Divisão

Mansur Samba Trio - "Santa Tereza"


Mansur Samba Trio "Wilson Divisão"


Site Oficial: Mansur Samba Trio

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Baixo & Voz

2008 - Viagens de Fé
Gênero: MPB



A música é uma arte. Através dela você expressa suas idéias, desejos, sentimentos e crença. E há momentos que devemos deixar nossas diferenças de lado e passar a ser levado pela música. Baixo & Voz é formado pelo baixista Sérgio Pereira e a cantora Marivone Lobo. Sérgio é compositor, arranjador, educador, colunista da revista Cover Baixo e já estudou com grandes nomes da música. Marivone é formada em Música Popular pela Universidade de Ribeirão Preto, também é compositora, arranjadora e professora de técnica vocal. O Baixo & Voz foi formado em 1991 e contam com quatro álbuns lançados: “Baixo e Voz” (1991), “Veleiro” (2002), “Cores” (2005) e “Viagens de Fé” (2008). E além de apresentações, também realizam workshops e cursos sobre vários assuntos, dão aula especificas sobre instrumentos (guitarra , baixo e violão).

“Viagens de Fé” é um álbum digno de aplauso em todos os sentidos. Sérgio manda muito bem no contrabaixo, criando melodias agradáveis e bem trabalhadas, enquanto a voz de Marivone dita um acompanhamento perfeito. Em algumas canções a percussão surge como um plano de fundo, porém discreto. Sobre as letras, elas dispensam comentários. Eu particularmente me sinto feliz em ouvir um trabalho assim, ainda mais em dias que a música cristã beira a mediocridade. Participações especiais do percussionista Magrão nas músicas “Sertão do Sal”, “Grafite” e “Viagens de Fé” e do Adriano Gifooni, no baixo de 6 cordas em “Sertão do Sal”. O álbum foi mixado no estúdio Voz e Violão, do grande músico João Alexandre. Vale ressaltar que o Sérgio e a Marivone disponibilizaram o álbum gratuitamente para download. Todos esses ingredientes faz com que “Viagens de Fé” fique praticamente irresistível. Boa Audição a Todos.

Track List

01. Canção de Jó
02. Estações do Amor
03. Sertão do Sal
04. Raras Essências
05. Luz forte
06. Viagens de fé
07. Idéia nova
08. Quando se está só
09. Grafite
10. Barquinho


Baixo e Voz - "Idéia Nova"


MySpace Oficial: Baixo & Voz

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Geração Digital.....


Isso não está longe de acontecer......


Fonte: MakeUseOf.com.
Edição e Tradução: Daniel (Blog Jazz e Rock)

terça-feira, 6 de abril de 2010

Entrevista Exclusiva: Numismata


Por Daniel Argentino e Marcello Lopes

Como é bom ouvir um som inovador e de qualidade. Às vezes passamos muito tempo a procura disso e quando encontramos a sensação é uma só: Divulgar isso para o maior número de pessoas. E aconteceu comigo quando descobri o som da banda Numismata. Na época que divulguei aqui no Blog Jazz e Rock o CD “Chorume”, eu disse que a banda era uma das grandes surpresas da nova geração da música brasileira, o que me chamou atenção foi o som, era inovador, diferente de tudo que eu conhecia no cenário nacional, tinha samba e MPB, com uma pegada de rock e efeitos psicodélicos, depois prestei atenção nas letras, todas bem elaboradas e inteligentes. Enfim, desde então passei a divulgá-los da melhor maneira possível, não poderia ouvir sozinho, pois seria egoísmo da minha parte. Depois de um tempo pensei em tentar uma possível entrevista, seria outra maneira de divulgar e conhecer melhor a história deles. Logo no primeiro contato fui muito bem atendido pela Pamela Leme (Assessora de Imprensa) e ela contribuiu de forma positiva para que a entrevista fosse realizada.

Quero deixar meus agradecimentos a todos os músicos da banda Numismata, em especial aos guitarristas Adalberto Rabelo Filho e André Vilela, que separaram um tempo para atender o Blog Jazz e Rock, a Pamela Leme que me atendeu muito bem e contribuiu para que tudo isso fosse feito e claro ao Marcello Lopes, parceiro que ajudou e muito na entrevista.

E aos leitores, espero que gostem da entrevista está imperdível e claro não deixem de conhecer o som do Numismata.

JR - O Numismata apareceu no cenário musical como uma banda diferenciada, com característica própria e som ousado. Fale um pouco sobre a história banda, como vocês se conheceram e como surgiu a idéia de formar o Numismata. Antes da banda, o que vocês faziam?

André Vilela – A banda original tinha o Carlos H., o Adalberto e o Russo, que saiu e voltou depois. Eu já conhecia o Adal, que me chamou em 2002 e eu trouxe o Piero comigo.

Adalberto – Bom, a gente se conhece de diferentes épocas da vida, mas se uniu pelo propósito comum de tocar música que a gente ache boa e se divertir com isso. O André e o Piero se conhecem faz um tempão e tiveram uma banda juntos, o “Amarelo Piscante”. Eu, o Carlão e o Russo também tivemos uma banda juntos, chamada “Mal Secreto”. O primeiro batera, o Falcão, era o batera da minha banda de rock, o “aardvark”, e o Felipe tocou com o Piero no “Piap”, que eu me lembre.

Acho que a diversidade é a marca registrada da música de qualidade, por isso é uma formação que demanda muito trabalho, mas é ao mesmo tempo muito prazerosa, porque não há como a gente seguir a convenção de um gênero específico, já que cada um é um “especialista” num tipo de linguagem e seria, eu creio, uma burrice tremenda ao invés de exacerbar o potencial dessas pessoas, tolher o seu talento criando limitações de gênero.

Essa questão de ser uma banda diferenciada é bastante subjetiva – eu realmente acho que a gente é, com todas as nossas peculiaridades, mas muitas vezes fomos jogados à revelia no balaio do “indie-samba”. Se a gente conquistou, espera-se, com nosso som, a nossa independência de rótulos, é porque a gente deve estar fazendo algo certo, não?

Essa coisa de se colocar sob a sombra de um grande nome todo um leque de artistas de diferentes gêneros é uma coisa recorrente e muito prejudicial aqui no Brasil. Inclusive pra banda merecedora da consagração, que acaba tendo que atender a expectativas irreais.

JR - Quais são as influências musicais dos membros da banda?

Adalberto – Olha, é a coisa mais difícil de definir. Pra falar a verdade, somando os gostos específicos de cada membro da banda, não há um gênero musical que não influencie a gente.

André – Não saberia dizer o quanto essas influências ajudam a entender o som da gente. Eu tenho ouvido muito jazz.

JR - E como foi reunir todas essas influencias e chegar a um consenso em relação ao som do Numismata?

André – De uma maneira positiva, nosso som não busca consenso, busca diversidade, mesmo. Por isso o “Chorume” é como é.

Adalberto – A gente tem, sim, um consenso dentro da banda: de que só existem dois tipos de música, como diria o Tião Carreiro, a boa e a ruim. E a gente respeita a liberdade de cada um interferir no processo, porque sabe do potencial de transformação daquela parada. Isso porque a gente acredita naquele velho exemplo do iPod: se no meu iPod tem Slayer, Paralamas, Beck, Yma Sumac, sei lá mais o que, isso tem de transparecer na arte que eu produzo. Qualquer outra maneira seria censura, e a pior de todas: a auto-imposta.

JR - O primeiro álbum, "Brazilians on the Moon", foi lançado em 2003 e por um selo independente. Quais foram as principais adversidades que vocês encontraram para que esse projeto fosse realizado?

Adalberto – Milhões. Gravar, mixar, lançar, chegar ao público consumidor, ao chamado público-alvo, resistência da mídia, falta de canais de divulgação, de casas de show pelo Brasil, de infra-estrutura. A gente só conseguiu um bando de coisa “with a little help from our friends”, como o Bussab, que sempre curtiu nosso som e apostou na gente, depois a galera da Agência Alavanca e o pessoal da Pimba!.

JR - Ainda sobre o primeiro álbum, vocês contaram com participações especiais de músicos e compositores, entre eles Skowa, Jards Macalé e da cantora da banda de rock alternativo Ludov, Vanessa Krongold. Sem dúvida, foi um grande troca de informações, afinal são músicos de outros estilos. De que forma isso foi aproveitado por vocês?

Adalberto – A gente sempre aproveita essas chances pra aprender com quem a gente acredita que tem o que ensinar.


JR - "Chorume" é trabalho mais recente da banda. Como ele surgiu? E por que este nome? Tem algum significado?

Adalberto – Ele surgiu há dez mil anos atrás, quando a gente ainda estava lançando o Brazilians. Prejuízo, a música que o melodia gravou, a gente já tocou no MAM na nossa estreia. Chorume é uma palavra legal, porque é uma palavra comum da língua portuguesa, mas de pouco uso corrente. Então, muita gente pode ouvir e achar que se trata de choro, mesmo, de tristeza. Também tem esse significado da opulência, que é meio a cara do disco, recheado de arranjos e detalhes. Tem essa história de ser também o suprassumo do lixo, o "melhor" do lixo, a parte que se aproveita de alguma forma como combustível. Acho saudável essa conotação irônica, acho que se levar muito a sério toda hora é uma coisa nada a ver.

JR - No "Chorume" vocês também tiveram participações de vários músicos, mas fale sobre a importância de ter Luiz Melodia envolvido nesse trabalho. Como surgiu o convite?

Adalberto – Importância total, né? O cara é um professor de música. Não é pagação de pau, no sentido de babar ovo, não. É aquela coisa: se o cara fosse um advogado bom pra caralho e você estudasse Direito, você não ia querer ter aula com ele na São Francisco? Acho que conhecimento nunca é demais, a gente tem sempre o que melhorar, o que acrescentar. Não pode ficar com pudores, não, nem achar que existe algum problema em se aproximar desses caras, com medo de ser desmerecido porque está dando uma de fã e não de músico. Aprender com o Melodia é coisa de músico.

O convite foi um barato: eu estava conversando com Jards Macalé depois de um show que ele fez com o Melodia. Então o Melodia entra no camarim e eles começam a bater papo, dar risada. No meio da conversa, o Macalé falou para Melodia, daquele jeito dele: "Esse aqui (apontando pra mim) é roqueiro. Tudo maluco, saca? Gravou 'Mal Secreto' no disco do Numismata, eu cantei com eles, uma versão moderníssíma, precisa ouvir!'. Nessas, o Melodia virou e disse: "Me convida também!", e eu: "Sério?", e ele, batendo no pescoço: "Claro, cara! Negão aqui tem gogó!" Caímos na risada e eu falei: "Olha, cara, eu vou ser chato, hein, é sério mesmo essa história, podemos combinar?", e ele, com cara de sério: "Mas é claro, tá me tirando?". Praticamente uma intimação. E ele nem tinha ouvido Numismata ainda, eu acho.

JR - “A Vida Como Ela é” é, na minha opinião, uma das músicas mais irreverentes e divertidas. Como surgiu essa ideia de incluir uma marchinha de carnaval álbum?

Adalberto – Não foi caso pensado, não. A gente compôs a música, adorou e falou: vamos gravar essa com a Alcina (com quem a gente já tinha tocado no projeto Circuito Original e no disco dela, o Maria Alcina Confete e Serpentina)? E rolou!

JR - Qual a opinião de vocês em relação ao download de músicas? Isso ajuda ou atrapalha o músico?

André – Bom, o mercado de música mudou mesmo. Os downloads seguem o esquema de divulgação boca-a-boca e fita K7 que sempre existiu. Acho que as redes só potencializaram isso em larga escala e as iniciativas individuais invaidaram o mercado. Se fosse fácil gravar uma fita K7 e dividir com todos os amigos pelo correio, isso já teria acontecido há muito tempo. No nosso caso, sem isso, com certeza seríamos muito menos conhecidos.

Adalberto – Não sei se eu tenho uma opinião formado a respeito disso. Do meu ponto de vista, parece que ajuda, mas não sei mensurar, eu não sei quanto tem de dispersão, o quanto isso, por outro lado, no sentido de dar a mesma relevância a propostas com qualidades diferentes, não acaba por nivelar um pouco por baixo.

Eu sei que é um processo democrático e tal, e que, nesse ponto, a coisa é bacana, porque eu ainda não conheço sistema mais justo que a democracia, mas justamente por eu achar que essa coisa da distribuição gratuita desse conteúdo ainda é um processo em formação, e não um sistema já fechado, é que eu não consigo definir qual é que é o papel exato do download. Por isso, peço perdão e sigo o caminho do meio, que parece ser sempre o mais adequado: nem tanto ao céu nem tanto à terra.

Dito isso, eu acho do caralho saber que tem alguém na Nova Zelândia ou em Burkina Faso que pode, nesse exato momento, estar ouvindo Chorume no laptop, mesmo sem entender patavina do que a gente tá cantando, bastando apenas alguns minutos para ter acesso ao nosso disco.

JR - Como vocês vêem o cenário musical brasileiro atual?

Adalberto – Com bons olhos. Tem muita gente bacana aí aparecendo, mas ainda penso que dá pra ser melhor, ainda mais forte, ainda mais intenso, ainda mais ousado.

André – Só acho uma pena que seja tão difícil a convivência entre produções novas e maravilhosas e os artistas consagrados. Mídia brasileira tem uma mania provinciana de insistir em medalhões. Tem que redimensionar o espaço.

JR - Quais os planos do Numismata para o futuro?

Adalberto – Gravar, compor, tocar, se divertir, não necessariamente nessa ordem.

Nas últimas entrevistas, inauguramos uma nova coluna no blog. É uma cópia descarada de uma coluna da Cover Guitarra. Indo direto ao ponto:

JR - Pra vocês, qual é o melhor álbum da história?


André – Ih. Não dá pra escolher, desculpa. Mas o Latin America Suite, do Duke Elington, me veio à cabeça. Eu poderia apontar mais 100, no mínimo.

Adalberto – Putz, impossível responder. Numa outra entrevista citei o Odelay, do Beck, como representativo da nossa visão. Dylan, Chico, Caetano, Tom Zé, Miles Davis, Beatles, isso é hours concours, não tem graça falar, é patrimônio da humanidade, já. Então, hoje tô afim de citar o primeiro do Stone Roses. Puta discaço! “Elephant Stone”, com a produção do Peter Hook, é foda demais.

JR - Qual disco vocês ouviram bastante na última semana?

André – Nesta semana, ouvi Wes Montgomery e Brian Setzer Orchestra incansavelmente.

Adalberto – Eu ouvi pra caramba Johnny Cash: American VI, Free Ride, de Dizzy Gillespie e Lalo Schifrin, Clube da Esquina, Heavy Ghost, de DM Stith, Them Crooked Vultures, Among My Swan, de Mazzy Star, Caipira, de Rolando Boldrin, Dois Cordões, de Alessandra Leão, e Severino, dos Paralamas do Sucesso.

JR - Qual disco vocês curtem, mas tem vergonha de admitir?

Adalberto – Bom, eu não tenho vergonha de admitir nada, não.

André – Não também não tenho vergonha de admitir nada em matéria de musica. Mas talvez atenda à sua pergunta eu dizer que adoro o primeiro do Rigth Said Fred. Acho genial.


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domingo, 4 de abril de 2010

Ruby Braff and the Flying Pizzarellis

2007 - C'est Magnifique!
Gênero: Jazz



Não conheci a carreira do trompetista Ruby Braff, na verdade, esse foi o primeiro álbum. Cheguei até “C’est Magnifique” por causa do guitarrista John Pizzarelli, já que sou fã de carteirinha.

Sobre o álbum é difícil encontrar informações específicas, porém temos o essencial, a boa música. Um trabalho excelente, onde Ruby Braff tem ao seu lado John Pizzarelli, Buck Pizzarelli, Martin Pizzarelli, Ray Kennedy e Jim Gwinn. O resultado é surpreendente, um jazz de altíssimo nível, espontâneo e com um toque de swing, o trompete de Ruby soa magnífico, com muita melodia e técnica, e os Pizzarellis dispensam qualquer comentário. O álbum é basicamente instrumental, porém John Pizzarelli canta nas canções “They Can't Take That Away From Me” e “As Time Goes By”. No mais o álbum é perfeito, destaque para todas as músicas.

Infelizmente Ruby faleceu em 2003, porém deixou um vasto legado para os amantes da boa música. Vale ressaltar que “C’est Magnifique” foi o último trabalho em estúdio do trompetista. Boa Audição.

Track List

01. Lulu's Back in Town
02. Was I to Blame for Falling in Love with You?
03. You're a Lucky Guy
04. When a Woman Loves a Man
05. C'est Magnifique
06. My Honey's Lovin' Arms
07. I Didn't Know What Time It Was
08. They Can't Take That Away From Me
09. As Time Goes By
10. Sometime I'm Happy
11. Dancing on the Ceiling