domingo, 17 de janeiro de 2010

Rock in Rio faz 25 Anos



Esta matéria foi ao ar no Jornal da Globo no último dia 15.

Por Nelson Motta

A sensação era de que “o grande amanhã” finalmente havia chegado. Não era mais uma metáfora surrada das músicas de oposição. Em janeiro de 1985, com a eleição de Tancredo Neves, acabavam oficialmente 20 anos de ditadura. Com o Rock in Rio, finalmente, se realizava o sonho de milhões de jovens brasileiros desde Woodstock, em 1969. Com 16 anos de atraso, os megaeventos de rock chegavam ao Brasil. Porque na ditadura não havia liberdade e, sem liberdade e rebeldia, o rock não rola.

Finalmente, graças a Roberto Medina, o Brasil tinha o seu Woodstock, com mais de 200 mil jovens, e já não tão jovens assim, aplaudindo e cantando junto com seus ídolos que só conheciam de discos e vídeos. Bandas de heavy metal como o Iron Maiden, o Scorpion, o AC/DC e o Whitesnake, que ninguém sabia que tinham tantos fãs no Brasil, foram um dos pontos altos, pelo menos em volume, do festival. Até o comentarista estava animado à beça.

Além do público, quem mais se beneficiou com o Rock in Rio foi o rock brasileiro dos anos 80, que, estimulado pela recém conquistada liberdade, começava a fazer sucesso no underground com a Blitz, Lulu Santos, o Barão Vermelho e o Kid Abelha. Com o Rock in Rio, em rede nacional pela TV Globo, o Rock Brasil entrava na moda e revelava os Paralamas do Sucesso.

Mas nem só de rock viveu o Rock in Rio, grandes nomes da MPB como Alceu Valença, Ney Matogrosso, Moraes Moreira e Ivan Lins também se apresentaram, uns com mais e outros com menos sucesso, ao lado de estrelas do jazz como George Benson e do folk, como James Taylor, que estava meio esquecido nos Estados Unidos, mas renasceu artisticamente do Rock in Rio.

O Brasil nunca havia visto nada parecido. Nossos artistas nunca haviam tocado para tanta gente e com um sistema de som tão bom. Mas o Rock in Rio acabou, Tancredo morreu, Sarney tomou posse e Brizola, que era governador do Rio de Janeiro e adversário político dos Medina, mandou destruir a Cidade do Rock.

O Rock in Rio só voltaria seis anos depois e se espalharia pelo mundo, mas o primeiro a gente não esquece.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Numismata

2009 - Chorume
Gênero: Samba/Rock/Elementos Eletrônicos


Numismata é uma das gratas surpresas da nova geração da música brasileira, a banda paulista traz além da qualidade musical e letras inteligentes, um som inovador e original; em que ao mesmo tempo resgata a tradição do samba e da MPB, eles também se arriscam em um som diferente, onde o samba flerta com o rock e vão de encontro com toques eletrônicos, efeitos psicodélicos e um toque latino. A banda é formada pelos músicos, Russo (voz e percussão), Adalberto Rabelo Filho (guitarra), Carlos H. (baixo), Piero Damiani (voz, teclados e percussão) e André Vilela (guitarra).

“Chorume” (2009) é o mais novo trabalho da banda, o ponto forte é o samba que flerta com outros estilos, fazendo com que o álbum fique irresistível. A banda consegue expressar a musicalidade da cidade de São Paulo e explora todos os estilos e de forma competente, começando pela faixa de abertura “Tanto Céu e essas Pequenas Coisas”, que é uma música que homenageia à dureza e a beleza de São Paulo e presta um tributo ao samba paulista. “Prejuízo” é a minha música favorita, carregada de energia e um samba vibrante, a letra é grudenta, é uma declaração de amor ao samba e que tem a participação de Luiz Melodia. A faixa “Narif” traz uma pegada mais rock, porém sem exageros, “Passos Largos” contém uma letra excelente e um arranjo sofisticado, que tem como aliados os instrumentos de corda, “O Inferno e Um Pouco Mais” vem carregada de sintetizadores e uma pegada digamos carnavalesca e a participação do multi-instrumentista Kassin e a Orquestra Imperial. “Vira-Latas” traz uma pegada jazzística, como vi em um comentário sobre o álbum, dizem que soa um jazz de cabaré, eu não sei, deixo isso com vocês (risos). “A Vida Como Ela É” é uma música nostálgica e que resgata a mágica das marcinhas de carnaval, a letra é excelente e para finalizar “Fernando”, uma canção com ritmos e embalo latino.

O álbum figura sem dúvida entre os melhores de 2009, soa original, do tipo que dificilmente você verá algo semelhante e se por acaso isso acontecer, certamente não terá a mesma qualidade. Para uma primeira impressão, tudo isso soa estranho, mas certamente após a primeira audição soará surpreendente. Boa parte desse sucesso e do trabalho excelente, deve-se ao time de convidados, entre eles músicos consagrados como Luiz Melodia e músicos que pertencem a nova safra brasileira, como, Tatá Aeroplano, Rita Maria, Maria Alcina, entre outros.

E só para finalizar, queria citar as palavras da própria banda em relação ao novo trabalho. “Chorume é o líquido negro produzido pela degradação do lixo, em geral em aterros sanitários. Altamente tóxico, é também (assim como o disco) um subproduto da urbanização e do acúmulo de informação. ‘Chorume’ é o sumo, a soma dessas influências. É uma boa metáfora do disco, que engloba tudo, todos os ritmos, sons, influências, temáticas, tudo triturado e reprocessado”.


Track List

01. Todo o Céu e Essas Pequenas Coisas
02. Prejuízo (com Luiz Melodia & Thadeu Meneghini)
03. O Inferno e Um Pouco Mais (com Kassin)
04. Naïf
05. A Passos Largos
06. Tanta Saudade
07. Anhanguera (com Maria Alcina & Rita Maria)
08. Vira-latas (com Carlos Fernando)
09. A Vida Como Ela é (com Maria Alcina & Tatá Aeroplano)
10. Fernando

MySpace Oficial: Numismata

sábado, 9 de janeiro de 2010

Miles Davis

1959 - Kind of Blue
Gênero: Jazz



Como descrever um gênio? Como falar da sua maior obra prima? Difícil é encontrar as palavras certas para comentar um álbum dessa magnitude. Miles Davis foi um gênio, um músico que sempre esteve à frente do seu tempo, ele visualizava o futuro, foi considerado uns dos músicos mais polêmicos do jazz, mais isso só serviu para abrilhantar ainda mais sua carreira. O trompetista ditou a regra de uma geração e foi ousado em tudo que se propôs a fazer. Do bebop ao hip hop, flertando com rock e o funk, Davis usou e abusou de tudo para compor suas canções.

Nascido no dia 26 de maio de 1926 em Alton, seu contato com o trompete e a música começaram muito cedo, aos 13 anos. Seu currículo é invejável, além de influenciar músicos de todas vertentes do jazz e de outros estilos, Davis foi um dos maiores representantes do cool jazz, jazz modal e jazz fusion. Davis não só representou, mais foi além, ele moldava estilos inteiros.

Em 1959 Miles surge com a sua maior obra-prima, o álbum “Kind of Blue”. Começando pelo sexteto genial, um verdadeiro grupo dos sonhos, formado por, John Coltrane (saxofone ternor), Julian “Cannonball” Adderley (saxophone alto), Bill Evans (piano), Paul Chambers (contrabaixo) e Jimmy Cobb (bateria). Miles simplesmente reuniu o que havia de melhor na época, era uma espécie de galácticos do jazz, imbatíveis.

O álbum é puro improviso, complexo e divino, não existem palavras para descrever, o sentimento flui à flor da pele, a impressão que passa é que cada nota foi colocava com a precisão de um cirurgião. “Kind of Blue” soa maravilhosamente bem na primeira audição, depois com o tempo, você começa a prestar atenção na complexidade de cada canção, desde a faixa "So What" até a genial “All Blues”, o sexteto parece brincar com as notas, como um time de craques, é consistente e matador.

“Kind Of Blue” completou recentemente 50 anos e para comemorar o aniversário a Columbia/Legacy, uma divisão da Sony, lançou uma edição para colecionadores, que inclui dois Cds do álbum original, mais versões alternativas que não saíram neste álbum (clássico).

Miles Davis morreu há exatos 19 anos, porém sua obra permanece viva, está presente em vários lugares do mundo e continuará realizando seu maior propósito, saciar a sede dos amantes do jazz e influenciar novas gerações. Boa Audição !

Track List

01. So What
02. Freddie Freeloader
03. Blue In Green
04. All Blues
05. Flamenco Sketches (Bônus)

Miles Davis and John Coltrane "So What" (Live)


Site Oficial: Miles Davis

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Torsten Goods

Finalmente !!. Consegui um álbum do excelente guitarrista Torsten Goods para postar aqui no Jazz e Rock. Descobri o som dele ao acaso no youtube e desde então passei a procurar algum material dele, mas tudo que encontrava eram vídeos e mais vídeos – inclusive postei aqui – além de pouquíssimas informações, mas agora para minha felicidade, postarei um álbum completo.

Torsten Goods é filho de mãe irlandesa e pai alemão, começou sua carreira aos 14 anos, e tem como principais influências, George Benson, Bireli Lagrene, Wes Montgomery, Django Reinhardt, Stevie Wonder, Kenny Loggins e Freddie Mercury. De 2001 à 2003, Torsten ganhou uma bolsa para estudar guitarra na renomada New School University em Nova Iorque. Em 2005, ficou entre os dez finalistas do famoso "Thelonious Monk Jazz Guitar Competition", isso o ajudou para que ganhasse mais notoriedade no cenário musical.

Seu penúltimo álbum “Irish Heart"(2006), teve uma excelente repercussão na Europa, Torsten canta e toca guitarra como poucos atualmente, seu som é sofisticado e moderno, um jazz cativante e que flerta com o R&B e Pop. O álbum é uma homenagem à Irlanda, terra da sua mãe, por isso as raízes irlandesas são tão ligadas ao seu som, principalmente nas letras. Entre canções próprias, Torsten relembra clássicos populares de músicos irlandeses, como Van Morrison e Bill Whelan. O trio que acompanha Torster é de extrema qualidade, Jan Miserre (piano, Fender Rhoades, Hammond Organ), Marco Kühnl (Baixo) e Christoph Huber (bateria). E neste álbum, ainda temos os músicos convidados, Julian Wasserfuhr (fluegelhom - faixa 3), The Jürgen Neudert Big Band (faixas 4,10), The NBG Horns (faixa 6) e Strings (faixa 2).

O vocalista/guitarrista também é adepto dos scats, prova disso é são as músicas“Sweet North” e “No Religion”. Vale lembrar, para quem conhece o guitarrista John Pizzarelli vai notar uma grande semelhança. Apesar de seguir os moldes e influências de músicos como George Benson, com este álbum, que tem uma mescla diversificada entre as músicas, Torsten mostra quão versátil ele é, tudo isso, aliado ao virtuosismo.

Boa Audição !

2006 - Irish Heart
Gênero: Jazz/Rhythm and Blues/Pop



Track List

01. Sweet North
02. No Religion
03. Have I Told You Lately That I Love You?
04. Moondance
05. She Moved Through The Fair
06. The End Of The Line
07. Carrickfergus
08. What Makes The Irish Heart Beat
09. Riverdance
10. I'm Gonna Go Out Fishing
11. The Londonderry Air

Torsten Goods "Sweet North" (Live)


Torsten Goods - "No Religion" (Live)


Site Oficial: Torsten Goods MySpace: Clique Aqui

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ed Motta

2009 - Piquenique
Gênero: Funk/Soul/Pop



Escrever sobre um trabalho do Ed Motta é sempre uma lição pra lá de complicada. Desde 2003 quando trocou de gravadora, saindo da Universal e ingressando na Trama, Ed Motta trilhou pelo caminho da liberdade musical, prova disso foi o último álbum “Chapter 9” (2008), que foi cantado todo em inglês e o próprio Ed se encarregou de tocar todos os instrumentos, a meu ver foi uma das maiores mudanças na sonoridade do Ed, porém em se tratando de um gênio, o álbum caiu no gosto e agradou boa parte dos fãs. Outra prova dessa liberdade foi o samba-jazz que embalou o excelente “Aystelum” (2005), um álbum inovador e enigmático para muitos e o “Dwitza” (2000), um álbum quase todo instrumental. Mas como tudo tem um preço, Ed acabou pagando com a popularidade (se é que posso chamar assim) e agora com o seu novo trabalho em cena, ele traz um som que nos remete aos bons tempos do "Manual Prático Para Bailes, Festas e Afins" (1997), “Conexão Japeri” (1988) e “Entre e Ouça” (1992).

“Piquenique” foi produzido pelo próprio Ed Motta, em parceria com Silveira, já nas canções a ajuda é da sua esposa Edna Lopes, autora de onze das 12 letras e que também é responsável pela arte gráfica. O ponto forte do álbum é à volta as origens do músico, flertando intensamente com o funk e o soul, sem falar da pegada pop que tanto marcou a carreira do Ed. O som e as letras soam perfeitamente, com um ar de espontaneidade e alegria do começo ao fim, tudo sob medida e nada exagerado, as letras são gostosas e grudentas, sendo impossível ouvir apenas uma vez. Com participações especiais da cantora Rita Lee na letra da música “Nefertite” e da Maria Rita na sensual “A Turma da Pilantragem” – faixa que celebra Wilson Simonal – em um dueto sensacional com o Ed. Apesar de o álbum soar descontraído, Ed preza pelo som sofisticado e arranjos elaborados, usando e abusando de teclados e piano, em uma mescla de instrumentos digitais e analógicos. A prova disso são as faixas “Carência No Frio", uma balada digna de aplauso e as canções “Nicole Versus Cheng” e “Compromisso” ambas trazendo uma pegada jazzística, maravilhosas. Um ponto forte do álbum que me chamou a atenção, é justamente a liberdade – no sentido de cantar de maneira solta e despojada – Ed nem parece um cantor consagrado, seu vocal soa e transmite alegria, principalmente nas faixas “Pé Na Jaca”, “Piquenique”, “Mensalidade” e “Bel Prazer”, músicas que certamente irão embalar boas festas.



“Piquenique” tem tudo para despontar nas paradas de sucesso, vem sendo aceito pela crítica de um modo geral e celebrado entre os fãs, o lamentável fica por conta da gravadora TRAMA, que está pecando no quesito distribuição, já que o CD não chegou a boa parte das lojas pelo país, esperamos que isso seja solucionado o mais rápido possível. Ed Motta mostra por que é um músico conceituado e reverenciado, volta para o cenário musical (se é que ele saiu algum dia), com um som refinado, agradável e delicioso, relembrando os bons tempos de “Fora da Lei”, “Manoel”, “Vamos Dançar”, “Daqui Pro Méier” e tantas outras, um álbum que não merece ser apenas ouvido e sim “degustado” da melhor maneira possível. Apreciem sem moderação !

Track List

01. Minha Vida Toda Com Você
02. Mensalidade
03. Pé na Jaca
04. Carência no Frio
05. A Turma da Pilantragem (com participação da Maria Rita)
06. Piquenique
07. O Mestre e o Aprendiz
08. Nefertiti
09. Compromisso
10. Bel Prazer
11. Nicole Versus Cheng
12. Tanto Faz

Ed Motta "Mensalidade" (Estúdio Ensaio)


Ed Motta "Pé na Jaca" (Estúdio Ensaio)


MySpace Ed Motta: Clique Aqui para ouvir as músicas
Site Oficial: Ed Motta

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Hermeto Pascoal e Grupo

2003 - Mundo Verde Esperança
Gênero: Música Instrumental Brasileira


Atendendo aos pedidos do Guilherme Kenzo, estou postando um álbum do gênio brasileiro, Hermeto Pascoal.

Conhecido como “O bruxo”, é considerado por grande parte dos músicos, como um dos maiores gênios em atividade na música mundial. Hermeto é conhecido pela sua capacidade em extrair música de qualquer coisa que possa produzir algum tipo de som, desde chaleiras, brinquedos de plástico e até mesmo copo com água. Nascido em Lagoa da Canoa, no interior de Alagoas, desde de pequeno se empenhou em aprender a tocar flauta e sanfona, aos 11 anos já se apresentava em forrós e feiras na companhia do irmão. Atualmente, Hermeto Pascoal apresenta-se com cinco formações: Hermeto Pascoal e Grupo, Hermeto Pascoal e Aline Morena, Hermeto Pascoal Solo, Hermeto Pascoal e Big Band e Hermeto Pascoal e Orquestra Sinfônica.

O álbum “Mundo Verde Esperança”(2003), foi gravado depois de um intervalo de 12 anos, neste trabalho Hermeto se apresenta ao lado do seu grupo musical, que o acompanha há 35 anos. Atualmente o grupo é composto por sete músicos: Hermeto Pascoal (teclado, chaleira, escaleta, berrante, copo com água, oito baixos, flauta-baixo...), Itiberê Zwarg (contrabaixo), Márcio Bahia (bateria), Fábio Pascoal (percussão), Vinícius Dorin (saxes e flautas), André Marques (piano) e Aline Morena (voz e viola caipira), além da participação da Itiberê Orquestra Família, comandada por Itiberê Zwarg (baixo) e formada basicamente por jovens músicos. Todas as músicas são inéditas e de autoria do próprio Hermeto, as canções prestam uma homenagem a seus netos e bisnetos, inclusive todas levam o nome de cada um. A única exceção é a faixa “Victor Assis Brasil”, que foi dedicada ao saxofonista que teve uma morte precoce em 1981.

O álbum segue o mesmo padrão dos outros trabalhos do multi- instrumentista, arranjos muito bem elaborados e surpreendentes, os improvisos são de uma espontaneidade que só Hermeto sabe fazer, se você está ouvindo o som do Hermeto pela primeira vez, vai ter a impressão de que tudo não passa de um emaranhado de notas e ritmos, mas com o tempo você começa a perceber a genialidade que contém no som desse músico que sempre esteve a frente do seu tempo. Não é a toa que até hoje “O bruxo”, ainda serve de referencia para os instrumentistas brasileiros e do mundo inteiro. Boa Audição !

Track List

01. Taiane
02. Celso
03. Airan
04. Uína
05. Caio
06. Taynara
07. Joyce
08. Ilzinha
09. Aluxan
10. Ursula
11. Camila
12. Renan
13. Victor Assis Brasil
14. Ailin

Site Oficial: Hermeto Pascoal

domingo, 3 de janeiro de 2010

"O Jogo do Anjo" (Carlos Ruiz Zafón)

Ficha Técnica

Escritor: Carlos Ruiz Zafón
Gênero: Literatura Estrangeira / Romance
Lançamento: 2008
Páginas: 416 páginas
Acabamento: Brochura
Editora: Objetiva / Selo: Suma de Letras

A primeira postagem do Blog Jazz e Rock em 2011 será sobre um livro muito especial. Depois de ler “A Sombra do Vento” do escritor catalão Carlos Ruiz Zafón, não pensei duas vezes antes de comprar o seu último romance “O Jogo do Anjo”.

O escritor Carlos Ruiz Zafón vem destacando no cenário literário, “A Sombra do Vento” foi um sucesso, ultrapassou a marca de 10 milhões de exemplares vendidos no mundo, desde o seu lançamento em 2001. Um livro excelente em todos os sentidos, ambientado no período da primeira metade dó século XX, em Barcelona, o escritor nos leva por caminhos inimagináveis, com personagens cativantes e misteriosos, a história é narrada com detalhes e faz com que o leitor se sinta parte dela. A obra de Zafón toca no fundo da alma e mexe com o nosso sentimento diversas vezes.

Lançado em 2008, “O Jogo do Anjo” já é um sucesso literário. Apesar de não ser uma continuação do livro anterior, Zafón brinda seus leitores com cenários e personagens bem familiares. A começar pela cidade de Barcelona. O escritor volta à cidade, mas em um período anterior daquele vivido em “A Sombra do Vento”, mais precisamente década de 20. Em relação aos lugares, o leitor terá novamente o prazer de passear pela pequena e acolhedora Livraria Sempere & Filhos e o misterioso e mágico Cemitério dos Livros Esquecidos. É nesse ambiente que Zafón constrói com maestria a história do seu novo romance. Segundo o próprio Zafón, O Jogo do Anjo, é uma história de mistério e romance, e assim como A Sombra do Vento, explora e combina numerosos gêneros, técnicas e registros. Além disso, é novamente uma história de livros, de quem os faz, de quem os lê e de quem vive com eles, através deles e até contra eles.

“Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita algumas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente o doce veneno da vaidade no sangue e começa a acreditar que, se conseguir disfarçar sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de garantir um teto sobre sua cabeça, um prato quente no final do dia e aquilo que mais deseja: seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente vai viver mais do que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento porque, a partir daí, ele está perdido e sua alma já tem um preço".

Assim começa “O Jogo do Anjo”. O protagonista e narrador é David Martin, um jovem escritor que vive em Barcelona, na década de 20. David começou a sentir a dureza da vida ainda criança, com o assassinato do seu pai. O seu talento para a escrita logo se manifestou, mas as oportunidades nunca tiveram à altura do seu potencial. Jovem, desiludido profissionalmente e no amor, depois de ver Cristina – seu grande amor – ir parar nos braços de seu amigo e protetor, Pedro Vidal, herdeiro do jornal e o homem a quem era destinado o tiro que matou o pai de David. Aos 28 anos, David Martin estava habituado a vender barato o seu talento, em troca escrevia histórias em um jornal, sempre escondido atrás de um pseudônimo., também escreveu um livro, que apesar da qualidade, não vingou e a vendagem foi abaixo do esperado . Vivendo sozinho em um casarão em ruínas, o jovem escritor se vê com um problema: está gravemente doente e com poucos meses pela frente. É quando surge em sua vida Andreas Corelli, um estrangeiro que se diz editor de livros. Sua origem é um mistério, mas sua fala é mansa e sedutora. Corelli procura David, por acreditar que ele é o único escritor que pode realizar o seu pedido. O editor oferece a David muito dinheiro e promete devolver e restaurar a sua saúde. Em troca Corelli não pede pouco: sua encomenda é um livro com potencial de influenciar milhões de vidas. O pedido coloca David em um dilema que o leva a questionar as reais intenções do editor misterioso e a pensar o peso dessa decisão que poderá mudar sua vida para sempre.

O Jogo do Anjo é uma história de suspense, amor e fé. Zafón explora com maestria a cidade de Barcelona, mas de um ângulo diferente. No livro, David conhece e frequenta a livraria Sempere & Filhos e também é levado ao Cemitério dos Livros Esquecidos.

Carlos Ruiz Zafón diz que “O Jogo do Anjo” tem uma visão diferente do “A Sombra do Vento”, um dos motivos é que no anterior, a história era contada a partir da visão de um menino que estava amadurecendo, descobrindo a vida e seus mistérios e por isso ganhou um ar mais amável, agora o escritor vai além e diz que seu livro atual é mais completo. Ainda segundo o escritor, ele pretende criar uma tetralogia e que as histórias de todos os volumes se situarão em algum período entre a Revolução Industrial e o final da Segunda Guerra. O Jogo do Anjo por exemplo faz referencia a acontecimentos que vão de 1904 a 1945. O escritor diz que todos os livros poderão ser lidos de forma independente.

Como leitor, já me considero um fã da obra do Zafón. Os dois livros são excelentes, mas ao ler percebi que “O Jogo do Anjo” é mais complexo, ele aguça a nossa imaginação e assim como David fica preso em um dilema, nós também ficamos a cada descoberta. É sem dúvida uma obra completa. Boa Leitura.

Leia o primeiro capítulo do livro "O Jogo do Anjo": Clique Aqui

sábado, 2 de janeiro de 2010

O Dossiê Iscariotes (Marcos Losekann)

Ficha Técnica:

Título: O Dossiê Iscariotes
Autor: Marcos Losekann
Gênero: Literatura Nacional (Romance/Policial/Ficção)
Lançamento: 2006
Páginas: 328
Acabamento: Brochura
Editora: Planeta

A primeira postagem em 2010 do Blog Jazz e Rock é uma dica livro, que alias é excelente e que marca a estréia do jornalista Marcos Losekann no concorrido mundo da ficção.

O Dossiê Iscariotes inaugura a trilogia “Entrevista com Deus”, fruto de um sonho acalentado pelo autor há quinze anos, desde quando ainda era repórter da Rede Globo em Brasília. Marcos Losekann é um leitor voraz de thrillers que misturam realidade e ficção – inclusive é um dos meus temas favoritos também – e foi nisso que Losekann apostou: criar um projeto com enredos eletrizantes que pudessem agradar os leitores mais exigentes do gênero. O jornalista preferiu buscar na história e nas questões brasileiras o cenário ideal para a sua ficção, o que não seria nada complicado para um jornalista talentoso e que trabalhou como repórter em Brasília, cobriu o julgamento dos assassinos de Chico Mendes, foi correspondente da Rede Globo na Amazônia.

Para completar o enredo da trilogia, Losekan precisaria criar um personagem com quem ele teria de conviver por muito tempo. Alguem com quem ele pudesse dividir suas lembranças, suas dúvidas, seus sonhos....E eis que surge Anderlon Gonçalves Valderês, ou simplesmente AGV, um jornalista consagrado e que está sempre em busca da sua maior reportagem. Entre idas e vindas, AGV chega a um dilema na sua carreira profissional, trocar as glórias conquistadas em alguns dos maiores jornais brasileiros por um saboroso desafio: viver na Amazônia como repórter do jornal brasiliense O Capital.

A empolgação inicial de AGV, um ateu convicto, dá lugar à desilusão. O sonho parece ter se transformado em um horrível pesadelo. Ele experimenta o sabor da derrota e vive uma crise sem precedentes. Até que, sem que lhe fosse dado o poder da escolha, o jornalista é pautado para cobrir uma rebelião na penitenciária de Manaus, porém no mesmo momento na cidade de Xapuri o seringueiro Chico Mendes é assassinado. O que parece uma simples coincidência logo se transforma na chave para um terrível segredo. À medida que avança na apuração de uma chacina de presos durante a rebelião, ele monta um quebra-cabeça que revela uma rede sem precedentes de interesses que envolvem a pedofilia na Igreja, corrupção no governo e tráfico de drogas. É nesse momento de investigação e revelações bombásticas que AGV é levado a indagar sobre sua própria fé, ele que sempre diz ser um ateu convicto, passa a ter evidências da existência de Deus. O que o jornalista não imagina, é que a partir desse momento, sua vida tomaria um rumo extraordinário e surpreendente.

AGV teria conseguido sua maior reportagem ? Uma entrevista com Deus ? Ou será tudo fruto da sua imaginação ? Bom para descobrir é só seguir os passos do jornalista em suas aventuras.

A trilogia “Entrevista com Deus” é composta pelos livros: “O Dossiê Iscariotes”, “O Segredo do Salão Verde” e “Entre a Cruz e a Suástica”. Em uma entrevista, o jornalista Marcos Losekann, disse que escreveu os três livros praticamente ao mesmo tempo e que mesmo sendo lançados em épocas diferentes, não existe uma seqüência entre os livros, são enredos e fundos históricos diferentes, sendo que, você pode ler em qualquer ordem, só que o surpreendente disso tudo é que, os livros de alguma maneira estão interligados, uma ação em um livro certamente terá uma reação no outro.

Eu tive a oportunidade de ler os três volumes e recomendo sem medo de errar, por se tratar do mesmo personagem – AVG – no decorrer da história você passa a ser mais do que um leitor, e passa a ser um seguidor do AGV, o livro aguça seu instinto jornalístico de alguma maneira, mesmo que você não perceba, talvez essa tenha sido a grande sacada da trilogia.


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